A escrita é uma arte muito intimista, em cada página o autor
coloca sempre algo de si. Algo que nunca seria partilhado ao público noutra
situação e que de certa forma é uma exposição da sua intimidade. O autor vai nu
em cada palavra que escreve. É um desafio difícil ser intimista e exibicionista
em simultâneo, por essa razão há milhares de livros encarcerados em gavetas sem
nunca verem a luz do dia.
E depois há um certo público que em consciência ou falta
dela, passa as mãos no corpo nu do autor apontando erros, defeitos, abrindo as
cicatrizes com um bisturi só para perceber o que existe por baixo, sem
anestesia, sem pudor, decência ou respeito. Depois, viram-lhe as costas e
deixam-no simplesmente a sangrar das feridas que infligiram, sejam no corpo, ou
na alma. O autor deu-se e foi molestado, alguns morrem logo ali.
Não há maus autores, cada um com o seu corpo mais ou menos imperfeito
teve a coragem de o mostrar e de se sujeitar a toques alheios, só isso é de se
louvar. É preciso coragem de leão para se expor desta maneira, sem pudor,
aberto ao que vier. Sempre com a esperança que entre o público haja alguém que
lhe dê a mão e o incentive a caminhar, oferecendo remédio para as feridas e
corrector para as deformidades.
O autor não espera agradar a todos, sabe que é imperfeito, procura
corrigir e aperfeiçoar-se ao longo do caminho com honestidade. Vai nu porque
necessita conhecer os seus defeitos e alguns só podem ser visíveis se alguém
mostrar que eles existem, estão lá, nas suas costas fora do seu campo de visão.
Mas não necessita que lhe atirem pedras, escarafunchem nos erros, o castrem,
mutilem e matem. Todos os males podem ser superados com respeito, simpatia e
empatia.
A voçês que cobrem as próprias imperfeições em camadas de
roupa que deturpam o corpo e disfarçam a mínima verruga, caminhando sob um
manto de falsa perfeição, respeitem o autor que vai nu, observem, apontem sem
tocar, com gentileza, não lhe cortem as pernas enquanto ele apenas aprende a andar.

