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segunda-feira, 17 de junho de 2024

O autor vai nu

 


A escrita é uma arte muito intimista, em cada página o autor coloca sempre algo de si. Algo que nunca seria partilhado ao público noutra situação e que de certa forma é uma exposição da sua intimidade. O autor vai nu em cada palavra que escreve. É um desafio difícil ser intimista e exibicionista em simultâneo, por essa razão há milhares de livros encarcerados em gavetas sem nunca verem a luz do dia.

E depois há um certo público que em consciência ou falta dela, passa as mãos no corpo nu do autor apontando erros, defeitos, abrindo as cicatrizes com um bisturi só para perceber o que existe por baixo, sem anestesia, sem pudor, decência ou respeito. Depois, viram-lhe as costas e deixam-no simplesmente a sangrar das feridas que infligiram, sejam no corpo, ou na alma. O autor deu-se e foi molestado, alguns morrem logo ali.

Não há maus autores, cada um com o seu corpo mais ou menos imperfeito teve a coragem de o mostrar e de se sujeitar a toques alheios, só isso é de se louvar. É preciso coragem de leão para se expor desta maneira, sem pudor, aberto ao que vier. Sempre com a esperança que entre o público haja alguém que lhe dê a mão e o incentive a caminhar, oferecendo remédio para as feridas e corrector para as deformidades.

O autor não espera agradar a todos, sabe que é imperfeito, procura corrigir e aperfeiçoar-se ao longo do caminho com honestidade. Vai nu porque necessita conhecer os seus defeitos e alguns só podem ser visíveis se alguém mostrar que eles existem, estão lá, nas suas costas fora do seu campo de visão. Mas não necessita que lhe atirem pedras, escarafunchem nos erros, o castrem, mutilem e matem. Todos os males podem ser superados com respeito, simpatia e empatia.

A voçês que cobrem as próprias imperfeições em camadas de roupa que deturpam o corpo e disfarçam a mínima verruga, caminhando sob um manto de falsa perfeição, respeitem o autor que vai nu, observem, apontem sem tocar, com gentileza, não lhe cortem as pernas enquanto ele apenas aprende a andar.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Escritas rasgadas

 


Gosto de contar histórias sejam elas inventadas ou reais, gosto de escrever para que essas histórias voem livres por aí. Não estou pré-ocupada se vou ter sucesso, ser um bestseller ou ganhar o prémio Nobel. Apenas gosto de escrever histórias, criar personagens e mundos imaginários que tempero com realidades actuais e presentes nas nossas vidas. Tenho plena consciência de que o que escrevo não agrada a todos, pode agradar apenas a uns poucos ou até só a mim, não interessa. Faço-o porque me dá prazer, um prazer terapêutico e relaxante que me retira por momentos da amargura do mundo actual, estou na história, só o meu corpo está aqui é como sonhar acordada.

Mas, e em tudo o que se faça há sempre um “mas”, frequentemente senti uma pressão externa por parte de outros para não me dedicar à escrita, são inúmeras as razões com que justificam porque não o devo fazer, parece uma maldição. Na adolescência era porque o que escrevia era desadequado para a minha tenra idade, não devia pensar naquelas coisas e sim ocupar-me com as matérias da escola. Cheguei a ver as minhas folhas serem queimadas, o meu diário violado e gozado, passei a escrever às escondidas e destruir as folhas logo em seguida, criei vergonha de escrever.

Mais tarde voltei a faze-lo, já sem destruir as folhas mas num caderno bem escondido de olhos alheios, nessa altura apenas uma amiga muito próxima estava autorizada a ler os meus escrevinhanços, mas até aí me senti traída. Num momento em que estava de férias, levou o caderno a um editor que estaria eventualmente disposto a publicar as minhas histórias mas tinha de fazer alterações, resumindo o meu caderno voltou todo rabiscado por um desconhecido com setas e anotações, lixo com ele, e mais ninguém tinha novamente luz verde para me ler. Sei que ela o fez com a melhor das intenções, mas foi contra a minha vontade, eu não estava preparada para expor o meu trabalho.

Agora, depois dos cinquenta firmemente dona do meu nariz voltei a escrever. Já autopubliquei um livro técnico, criei um blog e este ano tive a audácia de enviar um conto para um concurso literário, não ganhei nada mas sinto como se tivesse vencido uma batalha. Agora estou a escrever um livro de ficção completamente assumido, mas por vezes ainda sinto um tom de reprimenda que quase de forma inconsciente, me faz levantar a caneta do papel e pensar se a minha escrita está amaldiçoada, se há alguma força superior a bloquear-me a escrita. Sinto dedos apontados que me acusam de ser demasiado velha para começar agora, não ter formação na área certa, haver coisas mais importantes a fazer ou que questionam o tenho eu de relevante para dizer. Já não sei se é fruto da minha cabeça ou das minhas más experiências, mas aqui a dona Casmurra não está com vontade de desistir.

Somos Rafeiros, gostem ou não.