Gosto de contar histórias sejam elas inventadas ou reais, gosto de escrever para que essas histórias voem livres por aí. Não estou pré-ocupada se vou ter sucesso, ser um bestseller ou ganhar o prémio Nobel. Apenas gosto de escrever histórias, criar personagens e mundos imaginários que tempero com realidades actuais e presentes nas nossas vidas. Tenho plena consciência de que o que escrevo não agrada a todos, pode agradar apenas a uns poucos ou até só a mim, não interessa. Faço-o porque me dá prazer, um prazer terapêutico e relaxante que me retira por momentos da amargura do mundo actual, estou na história, só o meu corpo está aqui é como sonhar acordada.
Mas, e em tudo o que se faça há sempre um “mas”, frequentemente
senti uma pressão externa por parte de outros para não me dedicar à escrita,
são inúmeras as razões com que justificam porque não o devo fazer, parece uma
maldição. Na adolescência era porque o que escrevia era desadequado para a
minha tenra idade, não devia pensar naquelas coisas e sim ocupar-me com as
matérias da escola. Cheguei a ver as minhas folhas serem queimadas, o meu
diário violado e gozado, passei a escrever às escondidas e destruir as folhas
logo em seguida, criei vergonha de escrever.
Mais tarde voltei a faze-lo, já sem destruir as folhas mas
num caderno bem escondido de olhos alheios, nessa altura apenas uma amiga muito
próxima estava autorizada a ler os meus escrevinhanços, mas até aí me senti traída.
Num momento em que estava de férias, levou o caderno a um editor que estaria eventualmente
disposto a publicar as minhas histórias mas tinha de fazer alterações,
resumindo o meu caderno voltou todo rabiscado por um desconhecido com setas e
anotações, lixo com ele, e mais ninguém tinha novamente luz verde para me ler. Sei
que ela o fez com a melhor das intenções, mas foi contra a minha vontade, eu
não estava preparada para expor o meu trabalho.
Agora, depois dos cinquenta firmemente dona do meu nariz
voltei a escrever. Já autopubliquei um livro técnico, criei um blog e este ano tive a audácia de enviar
um conto para um concurso literário, não ganhei nada mas sinto como se tivesse
vencido uma batalha. Agora estou a escrever um livro de ficção completamente
assumido, mas por vezes ainda sinto um tom de reprimenda que quase de forma inconsciente,
me faz levantar a caneta do papel e pensar se a minha escrita está amaldiçoada,
se há alguma força superior a bloquear-me a escrita. Sinto dedos apontados que
me acusam de ser demasiado velha para começar agora, não ter formação na área
certa, haver coisas mais importantes a fazer ou que questionam o tenho eu de
relevante para dizer. Já não sei se é fruto da minha cabeça ou das minhas más
experiências, mas aqui a dona Casmurra não está com vontade de desistir.

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