Translate

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Escritas rasgadas

 


Gosto de contar histórias sejam elas inventadas ou reais, gosto de escrever para que essas histórias voem livres por aí. Não estou pré-ocupada se vou ter sucesso, ser um bestseller ou ganhar o prémio Nobel. Apenas gosto de escrever histórias, criar personagens e mundos imaginários que tempero com realidades actuais e presentes nas nossas vidas. Tenho plena consciência de que o que escrevo não agrada a todos, pode agradar apenas a uns poucos ou até só a mim, não interessa. Faço-o porque me dá prazer, um prazer terapêutico e relaxante que me retira por momentos da amargura do mundo actual, estou na história, só o meu corpo está aqui é como sonhar acordada.

Mas, e em tudo o que se faça há sempre um “mas”, frequentemente senti uma pressão externa por parte de outros para não me dedicar à escrita, são inúmeras as razões com que justificam porque não o devo fazer, parece uma maldição. Na adolescência era porque o que escrevia era desadequado para a minha tenra idade, não devia pensar naquelas coisas e sim ocupar-me com as matérias da escola. Cheguei a ver as minhas folhas serem queimadas, o meu diário violado e gozado, passei a escrever às escondidas e destruir as folhas logo em seguida, criei vergonha de escrever.

Mais tarde voltei a faze-lo, já sem destruir as folhas mas num caderno bem escondido de olhos alheios, nessa altura apenas uma amiga muito próxima estava autorizada a ler os meus escrevinhanços, mas até aí me senti traída. Num momento em que estava de férias, levou o caderno a um editor que estaria eventualmente disposto a publicar as minhas histórias mas tinha de fazer alterações, resumindo o meu caderno voltou todo rabiscado por um desconhecido com setas e anotações, lixo com ele, e mais ninguém tinha novamente luz verde para me ler. Sei que ela o fez com a melhor das intenções, mas foi contra a minha vontade, eu não estava preparada para expor o meu trabalho.

Agora, depois dos cinquenta firmemente dona do meu nariz voltei a escrever. Já autopubliquei um livro técnico, criei um blog e este ano tive a audácia de enviar um conto para um concurso literário, não ganhei nada mas sinto como se tivesse vencido uma batalha. Agora estou a escrever um livro de ficção completamente assumido, mas por vezes ainda sinto um tom de reprimenda que quase de forma inconsciente, me faz levantar a caneta do papel e pensar se a minha escrita está amaldiçoada, se há alguma força superior a bloquear-me a escrita. Sinto dedos apontados que me acusam de ser demasiado velha para começar agora, não ter formação na área certa, haver coisas mais importantes a fazer ou que questionam o tenho eu de relevante para dizer. Já não sei se é fruto da minha cabeça ou das minhas más experiências, mas aqui a dona Casmurra não está com vontade de desistir.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Somos Rafeiros, gostem ou não.