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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O Mistério da Ti Jacinta

 Numa pequena aldeia portuguesa no centro do pais, anos 30, era a minha mãe ainda uma menina de escola. Como vizinha tinha a ti Jacinta, curandeira, parteira e para alguns a bruxa da aldeia de quem todos falavam mal, mas todos lá iam bater à porta em busca de ajuda para as suas maleitas.

Diziam que aconteciam fenómenos estranhos na casa da tia Jacinta que por vezes, mesmo estando sozinha falava com alguém, névoas de outro mundo apareciam no seu quintal e se não gostava de alguém fazia-lhe um mau-olhado. As crianças da aldeia tinham um fascínio e curiosidade pelas histórias que circulavam da ti Jacinta, diziam que ela seria um bébe trocado, levado por mouras encantadas à nascença pois ninguém lhe conhecia família.

Sendo a minha mãe amiga e vizinha da senhora um dia pediu-lhe para passar lá uma noite com mais uma amigas e verificarem se realmente aconteciam coisas estranhas na sua casa. A ti Jacinta acedeu ao pedido e numa bela noite lá foi ela e mais 4 amigas para passar a noite. Um cobertor no chão, uma enxerga por cima e uma manta para cada uma, lá ficaram todas juntinhas na mesma sala. Combinaram fazer turnos para estar sempre uma delas acordada caso acontecesse alguma coisa estranha. Tiraram o uniforme da escola e colocaram-no muito direitinho debaixo dos colchões pois no dia seguinte iriam directamente para a escola. Nada aconteceu de especial enquanto alguém estava acordado, mas chegou a certa altura que todas adormeceram tranquilamente.

Na manhã seguinte acordaram convencidas que eram tudo histórias malucas que nada de extraordinário acontecia na casa da Ti Jacinta, tinham passado lá a noite inteira e nem sinal de fantasmas ou outra coisa qualquer. Mas...quando levantaram os colchões para tirar os uniformes da escola ficaram estupefactas, as sua roupas estavam cheias de nós apertados, todas torcidas, demoraram uma eternidade a voltar a pôr a roupa direita e por isso chegaram atrasadas à escola. A ti Jacinta sorria e disse que não foi ela, pois também dormiu a noite toda, apenas lhes disse "Há muito mais do que aquilo que vemos, uma dia talvez percebam...vá gaiatas para a escola que são horas".

Ora, para dar nós nas roupas teria sido necessário levantar cada colchão e da forma que estavam teria de se demorar muito tempo com cada uniforme, como seria possível ninguém dar por nada? Afinal o que aconteceu essa noite na casa da ti Jacinta? Quem fez nós na roupa das meninas?

Eu própria ainda conheci esta senhora, gostava dela, adorava ir a casa dela ver as ervas, regar as flores e comer os seus bolinhos, sempre a conheci muito velhinha e sózinha. Já depois da sua morte, passei pela casa onde ela vivia e lá estava ela à janela, acenei-lhe e a minha mãe perguntou "A quem estás a dizer adeus?" Respondi muito naturalmente "À Ti Jacinta, estava na janela".

História contada pela minha mãe e confirmada por todas as amigas que estavam lá naquela noite. Eu vi mesmo a ti Jacinta à janela, depois da sua morte.



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