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terça-feira, 5 de novembro de 2024

A Ilha dos Piratas

 


Toca o telefone, era Sara a mulher do seu melhor amigo, dizia que João tinha falecido a noite passada num acidente de carro. Carlos pede-lhe que repita, incrédulo com o que tinha acabado de ouvir. Desliga o telefone e leva as mãos à cabeça num sinal de desespero, ainda a ontem tinham estado juntos. Sem saber o que fazer nem o que pensar, Carlos deambula de um lado para o outro sem destino, da cozinha para o quarto, do quarto para a sala, da sala para o escritório, até que estagnou frente à janela, olhando para o mar infinito. Estava tranquilo como um espelho, pequenas ondas lambiam a costa, parecia que nem percebia o que tinha acontecido, era o oposto do turbilhão de emoções que naquele momento o assolavam.

Carlos precisava de um momento sozinho, só assim conseguiria assimilar esta terrível notícia. Fez um farnel com o pequeno-almoço e um termo com café quente. Saiu de casa em direção às docas, saltou para um pequeno barco de nome “Pouca Vergonha”, ligou o motor e arrancou em direção à praia de Ribeiro do Cavalo com o coração apertado. Era a sua praia e do João desde crianças, talvez ele lá estivesse e tudo isto não passasse de um mal-entendido. Ribeiro do Cavalo era a “ilha dos piratas” por eles conquistada, onde se escondiam das travessuras, desabafavam sobre os seus amores e desamores, tristezas e alegrias e onde engendravam a próxima tropelia. O acesso por terra era só para cabritos e pexitos*aventureiros, a alternativa mais rápida e simples era por mar, mas só para quem conhecia. E este era o barco deles, recuperado e remendado por ambos, um barco que o pai do João já não usava para a pesca e lhes ofereceu quando tinham 14 anos.

Carlos chegou à praia, sentou-se à beira mar e abriu o farnel, como tantas vezes antes o tinha feito com João. – Janito… estou aqui e trouxe comida!- Gritou, quebrando o silêncio da praia vazia. Aguardou um momento na vã esperança que João surgisse algures. Respirou lentamente sentindo o cheiro da maresia enquanto tomava o pequeno-almoço sozinho, os músculos relaxavam, a mente clareava e era embalada por recordações. Sentia a presença de João, Janito para os amigos, ouvia o seu riso e via-o de pé em cima da rocha empunhando uma espada de madeira e declarando a conquista da ilha dos piratas.

Levanta-se e procura o altar que tinham construído à “Senhora da Asneira”, divindade padroeira da ilha dos piratas, inventada por ambos para aliviar castigos e guardar segredos. Ali estava ela, escondida na gruta formada entre duas rochas, moldada em barro com olhos de concha, de um lado, os pedidos do Janito, do outro os do Carlitos. Montinhos de pedras que eram os pedidos de ambos, “Senhora, safa-me desta” a oração predileta.

Carlos cai de joelhos e chora convulsivamente, finalmente permitiu-se chorar, ali podia expressar toda a sua fragilidade, o seu desgosto e o seu vazio. Do lado direito daquele altar nunca mais seria colocada uma “pedra dos pedidos” e essa era uma realidade que jamais poderia ser alterada. De volta à beira mar, agora ligeiramente mais aliviado, dá um gole no café tentando imaginar como será a vida sem o Janito: com quem conversará? Com quem beberá uma cerveja ao fim do dia? Com quem irá à pesca, ou à bola? Com quem virá “morfar na ilha”, como ele dizia?

Pega em dois paus que ali chegaram com a maré, com eles constrói uma cruz atando-a com um pedaço de sargaço e com uma navalha grava na madeira “Janito 1990-2024”, volta à senhora da asneira e sobre o monte de pedras de Janito fixa a cruz, sobre o seu próprio monte adiciona mais uma pedra com um último pedido, coloca as mão na figura de barro e pede a uma santa imaginada por dois amigos – Senhora, cuida dele!-

*Termo local para os naturais de Sesimbra

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